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quarta-feira, 22 de julho de 2026

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL 2026-2032

 



Síntese: Paolo Cugini

Introdução

A missão dada por Jesus aos discípulos é anunciar o Evangelho. A Igreja existe para proclamar o Evangelho do Filho de Deus e, por meio dele, gerar a obediência da fé em todos os povos (Rm 1,1-5; Gl 3,5), em vista do Reino de Deus.

 

A Igreja no Brasil busca responder ao apelo do Espírito – intensificado na fase continental do Sínodo sobre a Sinodalidade – a ser uma tenda sempre aberta, capaz de ampliar a escuta e o acolhimento, sustentada por estacas firmes na fé, esperança e caridade, diante dos desafios atuais.

 

 

A nova realidade nos chama a rever os métodos de anúncio da Boa-Nova, de transmissão da fé e de fortalecimento do senso de pertença à comunidade eclesial. Igualmente, é necessário reavivar em toda a Igreja no Brasil a busca pela santidade e o sentido de participação e comunhão orientados pela missão. O grito da Terra e o grito dos pobres nos impulsionam a avançar para águas mais profundas, conforme o desejo de Jesus (Lc 5,4).

 

1 A IGREJA: TENDA DO ENCONTRO

Ser comunidade que se alarga, escuta os sinais dos tempos, faz o discernimento para a conversão pastoral e sai em missão. Esta tenda, sustentada pelas estacas bem firmes da fé, esperança e caridade, é espaço de comunhão, participação e missão.

 

2 A ESCUTA DOS SINAIS

Para viver a missão, é necessário que a Igreja saiba perceber “os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo atraente, em cada geração, às eternas perguntas dos seres humanos acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas.

 

3 DISCERNIMENTO PARA UMA IGREJA SINODAL

Movida pelo Espírito, a Igreja aprende a discernir para melhor firmar suas estacas e alargar seu espaço. Ela é chamada a rever seus caminhos e renovar seu modo de viver e anunciar o Evangelho. Em atitude sinodal, ela escuta, dialoga e se deixa converter, para que sua tenda seja cada vez mais lugar de comunhão, participação e missão.

 

A sinodalidade é a concretização da eclesiologia de comunhão afirmada pelo Concílio Vaticano II, pois “indica o específico modus vivendi et operandi da Igreja Povo de Deus que manifesta e realiza concretamente o ser comunhão no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e no participar ativamente de todos os seus membros em sua missão evangelizadora”

Para viver melhor a sinodalidade, é preciso que sejamos capazes de acolher entender nossas diferenças – de pensamentos, concepções e carismas – como dons a serviço do bem de todos, não como ameaças. Não alcançaremos a sinodalidade uniformizando pensamentos e identidades, mas abrindo-nos à escuta da Palavra e do Espírito, à escuta uns dos outros e ao diálogo generoso em favor de propósitos comuns – dos quais o maior e principal é a evangelização.

 

3.1 Comunhão

Mesmo que apareçam divergências na comunidade eclesial, às vezes até inevitáveis, é indispensável zelar por uma comunhão, que se expressa no caminhar juntos, sem ressentimentos, na acolhida da mesma família e no respeito às diferenças.

3.2 Participação

Ameaçam o senso de pertença das comunidades eclesiais à Igreja local os grupos fechados e de natureza sectária, alguns deles baseados em experiências midiáticas, que criam uma experiência religiosa paralela à vida cristã vivida na diocese ou mesmo na paróquia.

3.3 Missão

Quem é batizado se torna missionário, deve confessar a todas as pessoas a fé que de Deus recebeu por meio da Igreja, não só com palavras, mas com o testemunho.

Em nossas comunidades, há também situações em que a ação pastoral se concentra mais na mera conservação do que na missão. Em meio às muitas atividades, pode faltar ânimo ou condições para passos mais ousados em direção aos que ainda não participam da comunidade.

 

4 POVO DE DEUS EM MISSÃO

Num mundo fragmentado, com relações polarizadas que geram ódio, violência e medo, é urgente que toda a comunidade cristã seja sinal de uma nova forma de se relacionar, na qual as diferenças sejam celebradas como dons e não sejam vistas como motivos de divisão e rejeição do outro.

 

4.1 Laicato

A missão própria dos cristãos leigos e leigas os envia a atuar de modo transformador nos muitos espaços onde a vida acontece: na família; no trabalho e na economia; na educação, cultura, artes e ciências; na política e na comunicação e no cuidado da Casa Comum.

De modo especial, por meio dos cristãos leigos e leigas, a Igreja tem respondido com criatividade e fidelidade aos desafios de um mundo em constante mudança. Sua primeira responsabilidade é colaborar para a santificação e transformação das realidades temporais com o espírito do Evangelho.

4.1.1 Ministros Leigos e Leigas

Os carismas concedidos abundantemente por Deus, juntando-se aos sacramentos da Iniciação à Vida Cristã e ao reconhecimento eclesial, garantem à Igreja a variedade ministerial de que necessita para a sua vida e missão.

4.1.2 Famílias

A Igreja reconhece na família um dom precioso de Deus e uma vocação que participa do próprio plano de amor do Criador.

Nossa evangelização precisa também promover itinerários personalizados de catequese que promovam a vocação ao sacramento do matrimônio e suscitem nos casais o desejo de alegria, fidelidade e fecundidade.

4.1.3 Crianças e adolescentes

A Igreja é chamada a assumir, com responsabilidade e ternura, o cuidado e a proteção das crianças e adolescentes, cultivando neles o protagonismo da vida e da missão na Igreja e na sociedade.

Na vida eclesial, essa atenção se concretiza sobretudo nos itinerários da Iniciação à Vida Cristã, na participação como coroinhas, na Infância e Adolescência Missionária (IAM) e na presença ativa da Igreja nos espaços educativos. É igualmente fundamental fortalecer, em todas as comunidades, o compromisso com a Pastoral da Criança, que acompanha famílias vulneráveis

4.1.4 Jovens

O Sínodo dos Jovens65 afirmou que as juventudes têm um papel indispensável na renovação sinodal da Igreja, pois trazem forte sensibilidade à espiritualidade, à busca de sentido da vida, à fraternidade, à justiça social e ao cuidado da Casa Comum.

Por isso, é urgente que nossas comunidades lhes abram espaço real, para que vivam seu processo de discernimento vocacional, acolhendo suas formas criativas de viver o Evangelho para que sejam protagonistas da missão da Igreja, especialmente na evangelização dos jovens de sua geração.

4.1.5 Mulheres

A Igreja reconhece na mulher uma presença essencial para a evangelização, confiando-lhe tarefas que alimentaram a fé das primeiras comunidades.

Reconhecemos a grande importância e o protagonismo das mulheres para a comunidade cristã no testemunho e transmissão da fé, sobretudo no ministério de catequista. Mas também nos serviços de animação das comunidades e no serviço do anúncio da Palavra.

4.1.6 Pessoas com deficiência e neurodivergência

Cada comunidade eclesial é chamada a reconhecer as capacidades apostólicas das pessoas com deficiência e neurodivergência71 como sujeitos ativos de evangelização.

4.1.7 Idosos

A Igreja exerce sua voz profética também quando dedica especial respeito e reverência aos idosos.

Na Igreja, os idosos são como guardiões da memória da fé, da tradição e da sabedoria adquirida pela experiência da vida.

 

 

4.2 Vida Consagrada

A Vida Consagrada é uma força evangelizadora que promove a vida e a dignidade humana por meio de inúmeras obras missionárias no campo social, educativo, da saúde e da justiça, fecundando o Brasil com testemunhos que transformam realidades.

A Vida Consagrada, nas suas diferentes formas, contribui significativamente para o crescimento da sinodalidade da Igreja.

 

4.3 Ministros Ordenados

O ministério ordenado, como todos os ministérios na Igreja, está a serviço do anúncio do Evangelho e da edificação da comunidade eclesial.

Os presbíteros “formam com seu bispo um único presbitério” e colaboram com ele no discernimento dos carismas e no serviço à unidade da Igreja local.

Pelo testemunho de sua vida e pelo estilo do exercício do seu ministério, os ministros ordenados promovem a comunhão sinodal e a missão da Igreja nos mais diversos contextos, muitas vezes desafiadores.

4.4 Povos indígenas

 Dentro do povo de Deus em missão destacamos a singular importância dos povos indígenas. A Igreja tem aprendido muito do Evangelho da Vida no encontro e no convívio com eles.

Eles assumem o Evangelho, tornando-se evangelizadores e promotores do diálogo intercultural e interreligioso.

 

5 CAMINHOS DA MISSÃO

Os caminhos da missão são modos concretos de armar a tenda no hoje da história, não apenas ações, para que nela todos encontrem lugar, sentido e envio na missão. São eles:

 

5.1 Animação Bíblica da Pastoral

A redescoberta da Palavra depois do Concilio Vaticano II renovou a vida da Igreja e mostrou a importância da Bíblia na liturgia, na catequese, na espiritualidade e na ação pastoral, iluminando o caminho de cada discípulo na vida cotidiana.  A Igreja é ouvinte e servidora da Palavra. A Palavra de Deus é o “coração de toda atividade eclesial”.

A Igreja, chamada a viver da Palavra, é convidada a formar discípulos que a escutem com o coração e servidores que a anunciem com a vida.

5.2 Iniciação à Vida Cristã

A formação dos discípulos missionários nasce e se enraíza na Iniciação à Vida Cristã (IVC) de inspiração catecumenal84, quando cada pessoa é introduzida na relação com o Senhor e na comunhão da Igreja por meio de pais, padrinhos, catequistas, educadores, agentes da liturgia, ministros ordenados e comunidades.

5.3 Comunidades de discípulos missionários

A iniciação à fé, que nasce do anúncio da Palavra, gera a comunidade e a faz crescer, seguindo a mesma dinâmica que formou o grupo dos discípulos-apóstolos: reunir pessoas em torno da Palavra e da Eucaristia, fortalecê-las na fraternidade e enviá-las como testemunhas do Evangelho no cotidiano.

Nas pequenas comunidades de discípulos missionários, a hospitalidade torna-se marca essencial: são Igrejas de portas abertas, tendas sempre prontas a acolher quem busca um encontro com Cristo e deseja caminhar no discipulado missionário.

 

5.4 Liturgia e Piedade Popular

5.4.1 Liturgia

Cristo, presente nas ações litúrgicas, é o protagonista de toda celebração. Ele está presente no dinamismo dos sacramentos, nas espécies eucarísticas, na Palavra proclamada, no ministro e na assembleia reunida para rezar e cantar os salmos.

5.4.2 Piedade popular

A piedade popular é o conjunto de expressões de fé — individuais ou comunitárias — nascidas da do encontro do Evangelho com a vida, a cultura e a sensibilidade do povo, que brotam dentro do contexto da fé cristã e expressam uma sede de Deus profundamente enraizada no coração dos simples, gerando atitudes como confiança, sacrifício, paciência e solidariedade.

5.5 Serviço à vida plena para todos

5.5.1 Evangélica opção preferencial pelos pobres

A Igreja reconhece que o Senhor se une com particular ternura ao destino dos pobres e neles manifesta sua presença histórica.

A evangélica opção preferencial pelos pobres, considerando as várias acepções de pobreza, portanto, não nasce da filantropia, nem de uma opção ideológica, mas é própria da fé em Cristo.

A evangélica opção preferencial pelos pobres, então, deve orientar toda a vida e a ação da Igreja, não apenas em atitudes assistenciais, mas na conversão permanente dos corações, na busca pela transformação das estruturas injustas.

 

5.5.2        Promoção, defesa e cuidado da vida

A Igreja professa, com radicalidade, que toda vida humana é sagrada e inviolável, em qualquer estágio em que se encontre, desde a concepção até o seu fim natural.

Há um amplo horizonte de ameaças contemporâneas à vida humana: aborto, eutanásia, abandono de idosos, violência doméstica, feminicídio, violência institucional, no campo, contra os povos indígenas, quilombolas, pescadores, periféricos, tráfico e consumo de drogas, miséria extrema, exploração econômica, eliminação dos improdutivos e indiferença social.

 

5.5.3 Ecologia Integral

 

Assumir a ética do cuidado consiste em se abrir à caridade, “o amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor”.

 

6 COMPROMISSOS SINODAIS

 

6.1 Conversão das relações.

A Igreja é chamada a firmar suas estacas na conversão e a reordenar seus espaços para melhor servir à missão. Nela, as relações são curadas para gerar comunhão, os processos são purificados para favorecer a participação e os vínculos são alargados para tecer a fraternidade que ultrapassa fronteiras.

 

Conversão é um movimento suscitado pelo Espírito no coração do ser humano, ferido pelo pecado e necessitado de redenção, em seu processo de configuração à vida plenamente humana de Jesus Cristo.

 

O Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade indica que a conversão comunitária acontece em três níveis: nas relações, nos processos e nos vínculos.

Uma Igreja sinodal deve ser capaz de cultivar melhor as relações, não apenas a partir do empenho humano, mas, sobretudo, amparada pela graça de Deus.

 

6.1.1 Proteção de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis

A proteção de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis é dever irrenunciável de toda a comunidade eclesial.

 

6.1.2 Comunicação

 

A Trindade Santíssima é o modelo primeiro e perfeito de comunicação: o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem em eterna relação de amor que se doa, se expressa e se partilha. Assim, o amor — por sua própria natureza — é comunicação que abre, aproxima e cria comunhão.

 

6.2 Conversão dos processos

A conversão dos processos visa garantir o verdadeiro exercício da participação por parte de cada batizado ou batizada. Por isso, exige a renovação dos nossos processos de tomada de decisão, para que sejam cada vez mais abertos e participativos, pautados pela escuta e pelo diálogo fraterno.

 

O exercício da corresponsabilidade é uma das formas mais concretas de viver a participação na missão da Igreja, mas grande parte do Povo de Deus precisa ser formada para isso.

 

6.2.1 Sínodo diocesano e assembleia de pastoral

O Sínodo diocesano é uma assembleia realizada pelos ministros ordenados, Vida Consagrada e outros cristãos leigos e leigas “escolhidos no seio da Igreja Particular, que prestam auxílio ao bispo diocesano, para o bem de toda a comunidade diocesana”.

 

6.2.2 Conselho Pastoral

 

 

A finalidade de tais Conselhos, além da organização eclesial, é, sobretudo, fazer com que a vida cristã seja assumida por todos. Não se pode pensar somente nas pessoas que já estão na comunidade, mas é necessário ir em busca daquelas que estão afastadas.

 

O Conselho Pastoral coloca em destaque e realiza a centralidade do Povo de Deus como sujeito e protagonista ativo da missão evangelizadora. O Conselho Pastoral deve estudar e examinar tudo o que concerne às atividades pastorais e propor conclusões práticas, a fim de promover a missão do Povo de Deus na comunidade e no mundo.

 

6.2.3 Conselho de Assuntos Econômicos

Em cada diocese e paróquia é obrigatório, pelo Direito Canônico, constituir o Conselho de Assuntos Econômicos, composto por fiéis íntegros, peritos em economia e direito civil, presidido na diocese pelo bispo diocesano ou por seu delegado, na paróquia, pelo pároco ou por seu delegado.

 

6.2.4 Dízimo

Uma forma de expressar o senso de pertença comunitária é a participação no dízimo.

 

6.3 Conversão dos vínculos

A conversão dos vínculos, antes de mais nada, propõe que a Igreja revise seu enraizamento nas realidades locais. É preciso ouvir essas realidades e discernir, à luz do Espírito, como anunciar o Evangelho a partir das exigências culturais e urbanas, bem como das diferentes particularidades do lugar onde a Igreja está presente.

 

6.3.1 Organismos do Povo de Deus

No espírito do Concílio Vaticano II, a Igreja no Brasil caminha de forma sinodal e conta com organismos de comunhão, que visam assegurar a participação das diferentes expressões do Povo de Deus em vista da missão.

 

6.3.2 Organismos e Projetos Missionários

Na Assembleia Geral de 2019, acolhemos e aprofundamos o Programa Missionário Nacional (PMN). Renovamos o compromisso de concretizar suas prioridades (a formação, a animação missionária, a missão ad gentes e o compromisso profético social) e seus projetos, em espírito sinodal, em virtude de ser ele um instrumento articulador para a Igreja no Brasil.

 

6.3.3 Pacto Educativo Global

A educação cristã nasce da convicção de que a pessoa humana é sempre o centro do processo educativo. O Pacto Educativo Global recorda que formar é, antes de tudo, cuidar da dignidade de cada pessoa, em seus princípios: 1) colocar a pessoa humana no centro; 2) ouvir as novas gerações; 3) promover as meninas e as mulheres; 4) corresponsabilizar a família; 5) educar para a acolhida; 6) renovar a economia e a política; 7) cuidar da Casa Comum; 8) vida interior; 9) formação crítica para lidar com a Inteligência Artificial e novas tecnologias; 10) cultura da paz.

 

6.3.4 Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso

A missão evangelizadora da Igreja, hoje, realiza-se num mundo profundamente plural, no qual diferentes tradições religiosas convivem, dialogam e, por vezes, entram em conflito.

 

CONCLUSÃO

A esperança não decepciona (Rm 5,5).

Deixemo-nos atrair pela esperança e permitamos que, por meio de nossa vida, ela se torne irradiante para todos os que a buscam.