Síntese: Paolo Cugini
Introdução
A missão dada por Jesus aos discípulos é anunciar o
Evangelho. A Igreja existe para proclamar o Evangelho do Filho de Deus e, por
meio dele, gerar a obediência da fé em todos os povos (Rm 1,1-5; Gl 3,5), em
vista do Reino de Deus.
A Igreja no Brasil busca responder ao apelo do
Espírito – intensificado na fase continental do Sínodo sobre a Sinodalidade – a
ser uma tenda sempre aberta, capaz de ampliar a escuta e o acolhimento,
sustentada por estacas firmes na fé, esperança e caridade, diante dos desafios
atuais.
A nova realidade nos chama a rever os métodos de
anúncio da Boa-Nova, de transmissão da fé e de fortalecimento do senso de
pertença à comunidade eclesial. Igualmente, é necessário reavivar em toda a
Igreja no Brasil a busca pela santidade e o sentido de participação e comunhão
orientados pela missão. O grito da Terra e o grito dos pobres nos impulsionam a
avançar para águas mais profundas, conforme o desejo de Jesus (Lc 5,4).
1 A IGREJA: TENDA DO ENCONTRO
Ser comunidade que se alarga, escuta os sinais dos
tempos, faz o discernimento para a conversão pastoral e sai em missão. Esta
tenda, sustentada pelas estacas bem firmes da fé, esperança e caridade, é
espaço de comunhão, participação e missão.
2 A ESCUTA DOS SINAIS
Para viver a missão, é necessário que a Igreja saiba
perceber “os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho; para que
assim possa responder, de modo atraente, em cada geração, às eternas perguntas
dos seres humanos acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação
entre ambas.
3 DISCERNIMENTO PARA UMA IGREJA SINODAL
Movida pelo Espírito, a Igreja aprende a discernir
para melhor firmar suas estacas e alargar seu espaço. Ela é chamada a rever
seus caminhos e renovar seu modo de viver e anunciar o Evangelho. Em atitude
sinodal, ela escuta, dialoga e se deixa converter, para que sua tenda seja cada
vez mais lugar de comunhão, participação e missão.
A sinodalidade é a concretização da eclesiologia de
comunhão afirmada pelo Concílio Vaticano II, pois “indica o específico modus
vivendi et operandi da Igreja Povo de Deus que manifesta e realiza
concretamente o ser comunhão no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e
no participar ativamente de todos os seus membros em sua missão evangelizadora”
Para viver melhor a sinodalidade, é preciso que
sejamos capazes de acolher entender nossas diferenças – de pensamentos,
concepções e carismas – como dons a serviço do bem de todos, não como ameaças.
Não alcançaremos a sinodalidade uniformizando pensamentos e identidades, mas
abrindo-nos à escuta da Palavra e do Espírito, à escuta uns dos outros e ao
diálogo generoso em favor de propósitos comuns – dos quais o maior e principal
é a evangelização.
3.1 Comunhão
Mesmo que apareçam divergências na comunidade
eclesial, às vezes até inevitáveis, é indispensável zelar por uma comunhão, que
se expressa no caminhar juntos, sem ressentimentos, na acolhida da mesma
família e no respeito às diferenças.
3.2 Participação
Ameaçam o senso de pertença das comunidades eclesiais
à Igreja local os grupos fechados e de natureza sectária, alguns deles baseados
em experiências midiáticas, que criam uma experiência religiosa paralela à vida
cristã vivida na diocese ou mesmo na paróquia.
3.3 Missão
Quem é batizado se torna missionário, deve confessar a
todas as pessoas a fé que de Deus recebeu por meio da Igreja, não só com
palavras, mas com o testemunho.
Em nossas comunidades, há também situações em que a
ação pastoral se concentra mais na mera conservação do que na missão. Em meio
às muitas atividades, pode faltar ânimo ou condições para passos mais ousados
em direção aos que ainda não participam da comunidade.
4 POVO DE DEUS EM MISSÃO
Num mundo fragmentado, com relações polarizadas que
geram ódio, violência e medo, é urgente que toda a comunidade cristã seja sinal
de uma nova forma de se relacionar, na qual as diferenças sejam celebradas como
dons e não sejam vistas como motivos de divisão e rejeição do outro.
4.1 Laicato
A missão própria dos cristãos leigos e leigas os envia
a atuar de modo transformador nos muitos espaços onde a vida acontece: na
família; no trabalho e na economia; na educação, cultura, artes e ciências; na
política e na comunicação e no cuidado da Casa Comum.
De modo especial, por meio dos cristãos leigos e
leigas, a Igreja tem respondido com criatividade e fidelidade aos desafios de
um mundo em constante mudança. Sua primeira responsabilidade é colaborar para a
santificação e transformação das realidades temporais com o espírito do
Evangelho.
4.1.1 Ministros Leigos e Leigas
Os carismas concedidos abundantemente por Deus,
juntando-se aos sacramentos da Iniciação à Vida Cristã e ao reconhecimento
eclesial, garantem à Igreja a variedade ministerial de que necessita para a sua
vida e missão.
4.1.2 Famílias
A Igreja reconhece na família um dom precioso de Deus
e uma vocação que participa do próprio plano de amor do Criador.
Nossa evangelização precisa também promover
itinerários personalizados de catequese que promovam a vocação ao sacramento do
matrimônio e suscitem nos casais o desejo de alegria, fidelidade e fecundidade.
4.1.3 Crianças e adolescentes
A Igreja é chamada a assumir, com responsabilidade e
ternura, o cuidado e a proteção das crianças e adolescentes, cultivando neles o
protagonismo da vida e da missão na Igreja e na sociedade.
Na vida eclesial, essa atenção se concretiza sobretudo
nos itinerários da Iniciação à Vida Cristã, na participação como coroinhas, na
Infância e Adolescência Missionária (IAM) e na presença ativa da Igreja nos
espaços educativos. É igualmente fundamental fortalecer, em todas as
comunidades, o compromisso com a Pastoral da Criança, que acompanha famílias
vulneráveis
4.1.4 Jovens
O Sínodo dos Jovens65 afirmou que as juventudes têm um
papel indispensável na renovação sinodal da Igreja, pois trazem forte
sensibilidade à espiritualidade, à busca de sentido da vida, à fraternidade, à
justiça social e ao cuidado da Casa Comum.
Por isso, é urgente que nossas comunidades lhes abram
espaço real, para que vivam seu processo de discernimento vocacional, acolhendo
suas formas criativas de viver o Evangelho para que sejam protagonistas da
missão da Igreja, especialmente na evangelização dos jovens de sua geração.
4.1.5 Mulheres
A Igreja reconhece na mulher uma presença essencial
para a evangelização, confiando-lhe tarefas que alimentaram a fé das primeiras
comunidades.
Reconhecemos a grande importância e o protagonismo das
mulheres para a comunidade cristã no testemunho e transmissão da fé, sobretudo
no ministério de catequista. Mas também nos serviços de animação das
comunidades e no serviço do anúncio da Palavra.
4.1.6 Pessoas com deficiência e neurodivergência
Cada comunidade eclesial é chamada a reconhecer as
capacidades apostólicas das pessoas com deficiência e neurodivergência71 como
sujeitos ativos de evangelização.
4.1.7 Idosos
A Igreja exerce sua voz profética também quando dedica
especial respeito e reverência aos idosos.
Na Igreja, os idosos são como guardiões da memória da
fé, da tradição e da sabedoria adquirida pela experiência da vida.
4.2 Vida Consagrada
A Vida Consagrada é uma força evangelizadora que
promove a vida e a dignidade humana por meio de inúmeras obras missionárias no
campo social, educativo, da saúde e da justiça, fecundando o Brasil com
testemunhos que transformam realidades.
A Vida Consagrada, nas suas diferentes formas,
contribui significativamente para o crescimento da sinodalidade da Igreja.
4.3 Ministros Ordenados
O ministério ordenado, como todos os ministérios na
Igreja, está a serviço do anúncio do Evangelho e da edificação da comunidade
eclesial.
Os presbíteros “formam com seu bispo um único
presbitério” e colaboram com ele no discernimento dos carismas e no serviço à
unidade da Igreja local.
Pelo testemunho de sua vida e pelo estilo do exercício
do seu ministério, os ministros ordenados promovem a comunhão sinodal e a
missão da Igreja nos mais diversos contextos, muitas vezes desafiadores.
4.4 Povos indígenas
Dentro do povo
de Deus em missão destacamos a singular importância dos povos indígenas. A
Igreja tem aprendido muito do Evangelho da Vida no encontro e no convívio com
eles.
Eles assumem o Evangelho, tornando-se evangelizadores
e promotores do diálogo intercultural e interreligioso.
5 CAMINHOS DA MISSÃO
Os caminhos da missão são modos concretos de armar a
tenda no hoje da história, não apenas ações, para que nela todos encontrem
lugar, sentido e envio na missão. São eles:
5.1 Animação Bíblica da Pastoral
A redescoberta da Palavra depois do Concilio Vaticano
II renovou a vida da Igreja e mostrou a importância da Bíblia na liturgia, na
catequese, na espiritualidade e na ação pastoral, iluminando o caminho de cada
discípulo na vida cotidiana. A Igreja é
ouvinte e servidora da Palavra. A Palavra de Deus é o “coração de toda
atividade eclesial”.
A Igreja, chamada a viver da Palavra, é convidada a
formar discípulos que a escutem com o coração e servidores que a anunciem com a
vida.
5.2 Iniciação à Vida Cristã
A formação dos discípulos missionários nasce e se
enraíza na Iniciação à Vida Cristã (IVC) de inspiração catecumenal84, quando
cada pessoa é introduzida na relação com o Senhor e na comunhão da Igreja por
meio de pais, padrinhos, catequistas, educadores, agentes da liturgia,
ministros ordenados e comunidades.
5.3
Comunidades de discípulos missionários
A iniciação à fé, que nasce do anúncio da Palavra,
gera a comunidade e a faz crescer, seguindo a mesma dinâmica que formou o grupo
dos discípulos-apóstolos: reunir pessoas em torno da Palavra e da Eucaristia,
fortalecê-las na fraternidade e enviá-las como testemunhas do Evangelho no
cotidiano.
Nas pequenas comunidades de discípulos missionários, a
hospitalidade torna-se marca essencial: são Igrejas de portas abertas, tendas
sempre prontas a acolher quem busca um encontro com Cristo e deseja caminhar no
discipulado missionário.
5.4 Liturgia e Piedade Popular
5.4.1 Liturgia
Cristo, presente nas ações litúrgicas, é o
protagonista de toda celebração. Ele está presente no dinamismo dos
sacramentos, nas espécies eucarísticas, na Palavra proclamada, no ministro e na
assembleia reunida para rezar e cantar os salmos.
5.4.2 Piedade popular
A piedade popular é o conjunto de expressões de fé —
individuais ou comunitárias — nascidas da do encontro do Evangelho com a vida,
a cultura e a sensibilidade do povo, que brotam dentro do contexto da fé cristã
e expressam uma sede de Deus profundamente enraizada no coração dos simples,
gerando atitudes como confiança, sacrifício, paciência e solidariedade.
5.5 Serviço à vida plena para todos
5.5.1 Evangélica opção
preferencial pelos pobres
A Igreja reconhece que o Senhor se une com particular
ternura ao destino dos pobres e neles manifesta sua presença histórica.
A evangélica opção preferencial pelos pobres,
considerando as várias acepções de pobreza, portanto, não nasce da filantropia,
nem de uma opção ideológica, mas é própria da fé em Cristo.
A evangélica opção preferencial pelos pobres, então,
deve orientar toda a vida e a ação da Igreja, não apenas em atitudes
assistenciais, mas na conversão permanente dos corações, na busca pela
transformação das estruturas injustas.
5.5.2
Promoção,
defesa e cuidado da vida
A Igreja
professa, com radicalidade, que toda vida humana é sagrada e inviolável, em
qualquer estágio em que se encontre, desde a concepção até o seu fim natural.
Há um amplo
horizonte de ameaças contemporâneas à vida humana: aborto, eutanásia, abandono
de idosos, violência doméstica, feminicídio, violência institucional, no campo,
contra os povos indígenas, quilombolas, pescadores, periféricos, tráfico e
consumo de drogas, miséria extrema, exploração econômica, eliminação dos
improdutivos e indiferença social.
5.5.3
Ecologia Integral
Assumir a ética do cuidado consiste em se abrir à
caridade, “o amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e
político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo
melhor”.
6 COMPROMISSOS SINODAIS
6.1 Conversão das relações.
A Igreja é chamada a firmar suas estacas na conversão
e a reordenar seus espaços para melhor servir à missão. Nela, as relações são
curadas para gerar comunhão, os processos são purificados para favorecer a
participação e os vínculos são alargados para tecer a fraternidade que
ultrapassa fronteiras.
Conversão é um movimento suscitado pelo Espírito no
coração do ser humano, ferido pelo pecado e necessitado de redenção, em seu
processo de configuração à vida plenamente humana de Jesus Cristo.
O Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade
indica que a conversão comunitária acontece em três níveis: nas relações, nos
processos e nos vínculos.
Uma Igreja sinodal deve ser capaz de cultivar melhor
as relações, não apenas a partir do empenho humano, mas, sobretudo, amparada
pela graça de Deus.
6.1.1
Proteção de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis
A proteção de crianças,
adolescentes e adultos vulneráveis é dever irrenunciável de toda a comunidade
eclesial.
6.1.2 Comunicação
A Trindade Santíssima é o
modelo primeiro e perfeito de comunicação: o Pai, o Filho e o Espírito Santo
vivem em eterna relação de amor que se doa, se expressa e se partilha. Assim, o
amor — por sua própria natureza — é comunicação que abre, aproxima e cria
comunhão.
6.2 Conversão dos processos
A conversão dos processos visa garantir o verdadeiro
exercício da participação por parte de cada batizado ou batizada. Por isso,
exige a renovação dos nossos processos de tomada de decisão, para que sejam
cada vez mais abertos e participativos, pautados pela escuta e pelo diálogo
fraterno.
O exercício da
corresponsabilidade é uma das formas mais concretas de viver a participação na
missão da Igreja, mas grande parte do Povo de Deus precisa ser formada para
isso.
6.2.1
Sínodo diocesano e assembleia de pastoral
O Sínodo diocesano é uma
assembleia realizada pelos ministros ordenados, Vida Consagrada e outros
cristãos leigos e leigas “escolhidos no seio da Igreja Particular, que prestam
auxílio ao bispo diocesano, para o bem de toda a comunidade diocesana”.
6.2.2
Conselho Pastoral
A finalidade de tais
Conselhos, além da organização eclesial, é, sobretudo, fazer com que a vida
cristã seja assumida por todos. Não se pode pensar somente nas pessoas que já
estão na comunidade, mas é necessário ir em busca daquelas que estão afastadas.
O Conselho Pastoral coloca em
destaque e realiza a centralidade do Povo de Deus como sujeito e protagonista
ativo da missão evangelizadora. O Conselho Pastoral deve estudar e examinar
tudo o que concerne às atividades pastorais e propor conclusões práticas, a fim
de promover a missão do Povo de Deus na comunidade e no mundo.
6.2.3
Conselho de Assuntos Econômicos
Em cada diocese e paróquia é
obrigatório, pelo Direito Canônico, constituir o Conselho de Assuntos
Econômicos, composto por fiéis íntegros, peritos em economia e direito civil,
presidido na diocese pelo bispo diocesano ou por seu delegado, na paróquia, pelo
pároco ou por seu delegado.
6.2.4
Dízimo
Uma forma de expressar o senso
de pertença comunitária é a participação no dízimo.
6.3 Conversão dos vínculos
A conversão dos vínculos,
antes de mais nada, propõe que a Igreja revise seu enraizamento nas realidades
locais. É preciso ouvir essas realidades e discernir, à luz do Espírito, como
anunciar o Evangelho a partir das exigências culturais e urbanas, bem como das
diferentes particularidades do lugar onde a Igreja está presente.
6.3.1
Organismos do Povo de Deus
No espírito do Concílio
Vaticano II, a Igreja no Brasil caminha de forma sinodal e conta com organismos
de comunhão, que visam assegurar a participação das diferentes expressões do
Povo de Deus em vista da missão.
6.3.2
Organismos e Projetos Missionários
Na Assembleia Geral de 2019,
acolhemos e aprofundamos o Programa Missionário Nacional (PMN). Renovamos o
compromisso de concretizar suas prioridades (a formação, a animação
missionária, a missão ad gentes e o compromisso profético social) e seus
projetos, em espírito sinodal, em virtude de ser ele um instrumento articulador
para a Igreja no Brasil.
6.3.3
Pacto Educativo Global
A educação cristã nasce da
convicção de que a pessoa humana é sempre o centro do processo educativo. O
Pacto Educativo Global recorda que formar é, antes de tudo, cuidar da dignidade
de cada pessoa, em seus princípios: 1) colocar a pessoa humana no centro; 2)
ouvir as novas gerações; 3) promover as meninas e as mulheres; 4)
corresponsabilizar a família; 5) educar para a acolhida; 6) renovar a economia
e a política; 7) cuidar da Casa Comum; 8) vida interior; 9) formação crítica
para lidar com a Inteligência Artificial e novas tecnologias; 10) cultura da
paz.
6.3.4
Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso
A missão evangelizadora da
Igreja, hoje, realiza-se num mundo profundamente plural, no qual diferentes
tradições religiosas convivem, dialogam e, por vezes, entram em conflito.
CONCLUSÃO
A esperança não decepciona (Rm
5,5).
Deixemo-nos atrair pela esperança e permitamos que, por meio de nossa vida, ela se torne irradiante para todos os que a buscam.