segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Lectio Divina: o que é e como fazê-la?

 




A “Lectio Divina” é uma expressão latina já presente e consagrada no vocabulário católico, que pode ser traduzida como “leitura divina”, “leitura espiritual”, ou ainda como ocorre hoje em nosso país e em vários escritos atuais, como “leitura orante da Bíblia”. Ela é um alimento necessário para a nossa vida espiritual. A partir deste exercício, conscientes do plano de Deus e a Sua vontade, pode-se produzir os frutos espirituais necessários para a salvação. A Lectio Divina é deixar-se envolver pelo plano da Salvação de Deus. Os princípios da Lectio Divina foram expressos por volta do ano 220 e praticados por monges católicos, especialmente as regras monásticas dos santos: Pacômio, Agostinho, Basílio e Bento. O tempo diário dedicado à lectio divina sempre foi grande e no melhor momento do dia. A espiritualidade monástica sempre foi bíblica e litúrgica. A sistematização do método da lectio divina nós encontramos nos escritos de Guigo, o Cartucho, por volta do século XII.

A Lectio Divina tradicionalmente é uma oração individual, porém, pode-se fazê-la em grupo. O importante é rezar com a Palavra de Deus, lembrando o que dizem os bispos no Concílio Vaticano II, relembrando a mais antiga tradição católica – que conhecer a Sagrada Escritura é conhecer o próprio Cristo. Monges diziam que a Lectio Divina é a escada espiritual dos monges, mas é também de todo o cristão. O Papa Bento XVI fez a seguinte observação num discurso de 2005: “Eu gostaria, em especial, recordar e recomendar a antiga tradição da Lectio Divina, a leitura assídua da Sagrada Escritura, acompanhada da oração que traz um diálogo íntimo em que na leitura, se escuta Deus que fala e, rezando, responde-lhe com confiança a abertura do coração”.

O Concílio Vaticano II, em seu decreto Dei Verbum 25, ratificou e promoveu, com todo o peso de sua autoridade, a restauração da Lectio Divina, retomando essa antiquíssima tradição da Igreja Católica. O Concílio exorta igualmente, com ardor e insistência, a todos os fiéis cristãos, especialmente aos religiosos, que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, alcancem esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo (Fl 3,8). Porquanto, “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo” (São Jerônimo, Comm. In Is., prol).

O método mais antigo e que inspirou outros mais recentes, é que, seja pessoalmente, em comunidade ou no círculo bíblico nós comecemos a reflexão com a Palavra de Deus e que, depois da invocação do Espírito Santo, segue os passos tradicionais:

1-      Lectio (Leitura);

2-      Meditatio (Meditação);

3-      Oratio (Oração) e

4-      Contemplatio (Contemplação).

O método tradicional é simples: são quatro degraus – “a leitura procura a doçura da vida bem-aventurada; a meditação a encontra; a oração a pede, e a contemplação a experimenta. A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz. A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida.” (Guigo, o Cartucho, Scala Claustralium).

 

 

A leitura das Sagradas Escrituras é fundamental para conhecermos a vida de Cristo, seu plano de salvação e sua vontade. No entanto, não basta ler, é necessário que essas palavras evoluam para a oração e, por fim, para uma transformação de vida — uma verdadeira conversão. Muitas vezes, o desafio reside em como interpretar e aplicar a Palavra de Deus em nossa vida cotidiana.

O que é a lectio divina?

Ao realizar a Lectio Divina, não nos vemos simplesmente como leitores de um documento histórico, mas como participantes de um diálogo com o próprio Deus. Esta leitura não é uma atividade acadêmica, mas uma postura de escuta atenta, onde Deus se comunica diretamente conosco. Nesse sentido, a Palavra de Deus é uma mensagem viva, uma comunicação pessoal endereçada a cada um de nós.

Desdobrando-se em quatro fases dinâmicas, a lectio divina vai além da simples leitura das Escrituras, tornando-se uma verdadeira escola de oração para os cristãos. Nesse contexto, a oração é vista como uma resposta amorosa a Deus, que toma a iniciativa de se comunicar conosco.

O cerne desta prática está, portanto, no diálogo com Deus: lemos Sua Palavra, falamos com Ele e, em seguida, nos recolhemos para escutar, buscando aplicar em nossa vida o que Ele nos ensina.

 

Os 4 passos da lectio divina

Para entrar no clima da Lectio Divina é muito importante criar um ambiente propicio. Não é possível a lectio sem um clima do silencio. Por isso, para as pessoas que moram m casa, o momento mais propicio para realizar a Lectio Divina seria a manhã cedo, quando ainda os familiares dormem.

Em segundo lugar, sempre na perspectiva de criar o clima espiritual correto, a Lectio Divina se abre com a invocação prolongada do Espirito Santo.

Aqui em seguida as etapas.

 

Leitura

O primeiro passo na Lectio Divina é a leitura das Sagradas Escrituras. No entanto, não se trata de uma leitura comum, pois estamos diante da Palavra do próprio Deus, que se comunica diretamente ao nosso coração. Essa leitura é o meio pelo qual nos conectamos ao Cristo Ressuscitado e à Sua vida.

As Escrituras representam a voz viva de Deus, o Verbo Encarnado que se dirige a cada um de nós. Portanto, é fundamental fazer essa leitura de modo espiritual, reconhecendo que as palavras têm um significado profundo e nos conduzem à presença de Cristo.

É importante neste momento imaginar-se naquela cena descrita pela Palavra — o ambiente, os personagens, os diálogos etc. — e observar tudo o que está acontecendo como se estivesse lá. Além disso, é valioso memorizar certos trechos para meditar ao longo do dia. Pois a Palavra de Deus nutre nossa alma com um vigor espiritual e ilumina nosso caminho diário.

Meditação

Após a leitura, a meditação é o estágio em que a mensagem divina é internalizada. Ao memorizar trechos específicos, facilita-se a meditação, permitindo que a verdade divina ilumine a alma. Esse processo envolve uma escuta atenta à voz de Deus, em busca da verdade do amor de Cristo, que ressoa nas Escrituras.

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, “a meditação é sobretudo uma busca. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede.” 

Na meditação, não se busca sentimentos, mas a verdade divina. Reconhecemos que o Cristo dos Evangelhos pensava em nós enquanto falava ou realizava milagres, portanto, este trecho das Escrituras torna-se um encontro pessoal com a voz de Deus: “o que Ele está dizendo a mim?”. Sendo assim, é o momento também de confrontar a Palavra divina com a própria vida, guiados pela iluminação do Espírito Santo.

Só é possível dar uma resposta a Deus quando se compreende o que Ele pede de maneira direta. Embora a Palavra de Deus seja para toda a humanidade, na meditação da lectio divina, busca-se entender o que o Senhor quer comunicar a cada um, individualmente, através da Sua Palavra.

 

Oração

No terceiro estágio, a oração emerge como uma resposta à verdade assimilada na meditação. A Palavra de Deus se converte em expressões de fé, esperança e caridade, tornando-se um veículo para manifestar o amor por Cristo. Nesse diálogo pessoal, as palavras não precisam ser rebuscadas; basta proferir frases simples como “Senhor, eu creio em Ti” ou “Senhor, desejo amar-Te, concede-me a graça”.

A oração vocal transforma-se em um canal para pedir a graça de crer na mensagem divina, corresponder ao amor de Deus e amá-lo verdadeiramente. A oração é um diálogo no qual se expressam as necessidades, mesmo sabendo que o Senhor as conhece. É o momento de pedir o que for necessário — amor, paciência, força, alegria, fé —, com base naquilo que o Senhor revelou durante a meditação.

O objetivo dessa oração é ser uma resposta que não se limite a palavras, mas resulte em um compromisso com Deus, a fim de gerar uma verdadeira mudança de vida — a partir da descoberta da verdade contida na Palavra de Deus.

Contemplação

Por fim, atinge-se a contemplação, é o momento de permanecer na presença amorosa de Deus. Nesse estágio da lectio divina, não há mais palavras; trata-se de um silêncio repleto de significado. Após a leitura, a meditação e a oração, recolhemo-nos na presença ativa de Deus. É o momento de Cristo agir na alma agitada que se aquieta.

Assim como o discípulo João que se reclinou no peito do mestre, permanecemos em comunhão íntima. Nesse estado contemplativo, é possível experimentar a presença de Deus — lembrando que isso não significa sentir — como uma luz divina que ilumina a compreensão e revela o conhecimento do Seu amor constante em suas vidas.

A contemplação é adentrar no mistério de Cristo, Santa Teresa a resume nestas palavras: “Outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão tratar de amizade — estando muitas vezes tratando a sós — com Quem sabemos que nos ama.”

 

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